A solidão brota no interior crânio e 
Transborda pelos olhos,
Esgana a garganta,
Esmaga o coração,
Corta pelo ventre,
Frio, terrível,
Escorre pela virilha, 
Tal qual o sangramento sagrado,
E chega ao chão, uma poça aos seus pés,
Fora de ti, evapora
Fertiliza o universo, 
Faz brotar as tuas florzinhas na rua
Sobe ao sol, aonde queima e te aquece a pele, as mãos e a cuca
É uma dança sagrada entre teu coração e os segredos,
De que um dia outra coisa vai brotar no teu peito

 

 

limite

é uma ideia que permeia e define o amago de quem eu fui, me persegue até hoje, não compreendo plenamente como se formulou, porque me constitui tão intensamente esse ódio por mim, pelo meu corpo, pela minha mente, é um desafio imenso passar um dia sem me torturar, sem ter pensamentos que me humilham, que me estraçalham, por que eu afastei todos, porque nunca me considerei merecedor de amor e até hoje quando eu fecho os olhos eu penso, ela nunca teria me amado mesmo, o inferno já me precedia, meu caminho é a mágoa de quem sou

odor

drague o ar, não basta respirar, respirar profundamente, puxar o ar ou qualquer medida provisória ou paliativa

rompa os alvéolos pulmonares, esmigalhe sua caixa torácica com a força da expansão,

por fim exploda,

pois é a ultima vez que sente o perfume dela

Nunca vai embora

Os dias vão e vem numa dança inebriante

Soltos na canção do silêncio

Como um vírus canibal destruíste tudo

Profanaste o profano

Vulgar diabo

Monstro comum

Manipulador kamikaze

Da tua ilha de sal no deserto de arrependimento

Nem a morte te vislumbra

Os deuses nem sequer lembraram de te esquecer

E

Ainda assim

Nessa prisão, nesse abandono, nessa nem vida nem morte, nesse esquecimento sagrado, não passa um piscar de olhos sem que a imagem dela esteja tatuada na parte interna das tuas pálpebras, não uma respiração que não infle teus pulmões com a memória do perfume dela, esse é teu inferno, e o inferno é uma bênção